Burnout e função parental: quem cuida também precisa ser cuidado e não “padecer no paraíso”

A síndrome de Burnout é uma condição patológica caracterizada por esgotamento mental e físico. Mas, como esta condição pode acontecer no contexto da dedicação parental? Ou seja, o cuidado dos filhos e a dedicação à vida familiar podem gerar esgotamento?

Sim, podem, principalmente quando o cuidador exerce as funções materna e/ou paterna sem qualquer apoio ou parceria emocional. Quando estas funções viram responsabilidades exclusivas de uma só pessoa. Neste caso, não importa se a pessoa em questão é do sexo feminino ou masculino, mãe ou pai biológicos. As funções parentais são extremamente exigentes tanto do ponto de vista físico como emocional.

Cuidar envolve estar constantemente atento e alerta à comunicação verbal e não verbal  do outro, de modo a atender às suas necessidades físicas/corporais (alimentar, banhar, fazer adormecer, etc) e relacionais (escutar, compreender, antecipar, prever, dialogar, acalmar, incentivar, etc).

Infelizmente o cuidado dos filhos e a dedicação à vida doméstica são actividades pouco valorizadas, no que se refere à sua carga física e psíquica, tendo por crença subliminar a ideia de que tudo o que é feito com amor não custa. O cansaço e as exigências emocionais são vistos nessa óptica como um padecer que é ao mesmo tempo reconfortante… é um “padecer no paraíso”.

A queixa por parte daquele que exerce as funções parentais, no âmbito das responsabilidades para com a família, a casa e os filhos, é geralmente mal interpretada gerando culpa em quem pede ajuda e reclama por apoio, atenção, companheirismo e cuidado. Há pouco diálogo franco e aberto nas relações para entender o outro na sua dor, nos momentos em que ele sinaliza que está no limite dos seus recursos internos. Estes podem ser postos à prova  inclusive por tocarem em pontos difíceis, relativos à própria história de maternagem e/ou paternagem deste cuidador.

A experiência de se sentir esgotado ou incapaz é constantemente menosprezada nesses contextos, como se aquele que sofre e pede socorro estivesse a falhar, no que diz respeito ao desempenho de uma função tão nobre e supostamente natural. Alguns até dizem que nascemos programados para amar e, nesta lógica, quando os conflitos aparecem ganham uma conotação de fracasso e má vontade. Interpretação que leva a brigas e discussões infrutíferas, ao invés de servirem de oportunidade para o autoconhecimento e crescimento pessoal e do casal/família.

A tarefa de amar, zelar e apresentar o mundo implica desafios que mudam ao longo do tempo, pois reflectem as demandas do próprio desenvolvimento das crianças, do casal, das pessoas enquanto indivíduos e da família.

Afinal, quem cuida também precisa ser cuidado, atendido em suas necessidades físicas e emocionais. Porém, somente cada um pode falar de si e expressar aquilo que precisa. Não há receitas para apoiar devidamente. O melhor caminho é estar disponível, acolher e pô-se em ação, respeitando e dialogando sobre o que se sente e é sentido. Não basta apenas cumprir um check list de tarefas, é preciso estar junto e ser companheiro também emocionalmente.

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